O fim dos ídolos: 2026 e a geração que poderá redesenhar o Brasil
Por Bruno Brennand
Talvez a maior consequência das eleições de 2026 não seja a vitória de Lula nem a derrota de Flávio Bolsonaro, mas a possibilidade de que ambas encerrem um ciclo histórico. O Brasil passou anos escolhendo menos aquilo que desejava e mais aquilo que temia. Substituímos projetos por personagens, convicções por fidelidades e o debate político por uma rivalidade de arquibancada. Em 2030, poderemos finalmente descobrir se existem uma direita para além dos Bolsonaro e uma esquerda para além de Lula. O desafio não será apenas trocar os nomes nas urnas, mas recuperar a capacidade de votar por ideias, e não exclusivamente contra pessoas.
Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. A diferença, de aproximadamente 4,43 milhões de votos, confirma a persistência de uma divisão profunda na sociedade brasileira. Mas a interpretação histórica de uma eleição não pode ficar restrita à contagem dos votos.
Há derrotas que libertam, vitórias que aprisionam e acontecimentos que, embora pareçam representar a continuidade, anunciam o princípio de uma transformação.
Talvez estejamos diante de uma dessas encruzilhadas.
A geração que o Brasil perdeu
A história política brasileira também pode ser contada pelas lideranças que não chegaram a ocupar os espaços para os quais pareciam destinadas.
Em 1998, a morte de Luís Eduardo Magalhães, aos 43 anos, interrompeu a trajetória de um dos mais influentes representantes de uma geração que se preparava para assumir maior protagonismo nacional. Presidente da Câmara dos Deputados, Luís Eduardo reunia experiência parlamentar, capacidade de articulação e projeção política.
Dezesseis anos depois, em agosto de 2014, o Brasil perdeu Eduardo Campos, aos 49 anos, num acidente aéreo em Santos. Ex-governador de Pernambuco, ex-ministro e então candidato à Presidência da República, Eduardo representava outra possibilidade de renovação política, construída sobre experiência administrativa, diálogo e capacidade de articulação.
Havia também Aécio Neves, que disputou a Presidência em 2014, recebeu mais de 51 milhões de votos no segundo turno, mas não conseguiu consolidar sua trajetória como liderança presidencial duradoura.
Não podemos afirmar que Luís Eduardo ou Eduardo Campos teriam chegado à Presidência. A história não admite certezas sobre aquilo que não aconteceu. Mas podemos reconhecer que suas mortes interromperam possibilidades concretas de sucessão e que o desgaste de outras lideranças contribuiu para alterar os caminhos da política nacional.
O Brasil perdeu, ou ao menos desperdiçou, parte de uma transição geracional.
Enquanto isso, Lula e Jair Bolsonaro passaram a concentrar parcela extraordinária das paixões políticas brasileiras.
A disputa deixou de ocorrer apenas entre partidos, programas e concepções de Estado. Transformou-se numa relação de pertencimento pessoal, em que criticar o líder passou a ser confundido com trair uma causa.
E quando a fidelidade a um homem se torna mais importante do que a fidelidade aos princípios, a política deixa de ser instrumento de transformação e passa a funcionar como uma espécie de devoção secular.
O resultado foi uma sociedade que frequentemente votou menos por identidade de ideias do que por rejeição ao adversário.
É precisamente essa lógica que 2030 poderá começar a romper.
A vitória de Lula e a herança fiscal de 2026
As eleições de 2026 também deixaram uma questão que ultrapassa a disputa presidencial: o uso de medidas governamentais de forte apelo econômico e social durante o período eleitoral, especialmente no segundo turno.
Em 13 de outubro, a apenas doze dias da votação decisiva, o governo federal anunciou o programa Prospera MEI, contemplando propostas de perdão de dívidas tributárias de microempreendedores individuais, renegociação de débitos bancários e auxílio produtivo de até R$ 5 mil, sem obrigação de devolução.
O perdão tributário anunciado abrangia aproximadamente R$ 12,6 bilhões em dívidas. O chamado Pix MEI, entretanto, ainda dependia de estruturação para sua implementação.
Também foram anunciadas ou executadas medidas relacionadas ao Bolsa Família, incluindo reajuste do benefício e antecipação de pagamentos no período eleitoral.
Não se discute aqui a legitimidade da proteção social ou a necessidade de apoiar pequenos empreendedores. Discute-se a utilização de instrumentos governamentais em circunstâncias que suscitam questionamentos sobre a igualdade de oportunidades entre candidatos.
Sob uma perspectiva crítica, o conjunto dessas medidas fornece elementos para investigar possível abuso de poder político e econômico. A conclusão jurídica sobre cada conduta exige, naturalmente, exame de sua gravidade, finalidade e enquadramento na legislação eleitoral.
É preciso reconhecer, inclusive, que medidas semelhantes já foram adotadas em eleições anteriores, por governos de diferentes orientações. O problema institucional não depende da identidade partidária de quem ocupa o poder.
Mas há uma particularidade em 2026.
O candidato que anunciou as medidas venceu a eleição.
Levantamentos divulgados durante o segundo turno estimaram em até R$ 290 bilhões o conjunto de compromissos e medidas associados à campanha de Lula, embora os valores possuam diferentes horizontes temporais e metodologias de cálculo.
Parte dessas promessas poderá pressionar o orçamento federal a partir de 2027, impondo escolhas difíceis num cenário de despesas obrigatórias elevadas, limitações fiscais e necessidade de investimentos públicos.
A conta política foi apresentada ao eleitor em outubro. A conta orçamentária chegará nos anos seguintes.
A vitória eleitoral não elimina as restrições da economia, tampouco transforma promessas de campanha em receitas disponíveis.
Eis o paradoxo: as medidas que ajudaram a compor a estratégia eleitoral poderão restringir a própria capacidade de governar.
Mais importante ainda, a geração que vier a assumir o comando do país encontrará parte dessa herança.
A renovação política poderá ocorrer antes da renovação das condições fiscais necessárias para executar novos projetos.
A direita não está se dividindo. Está se definindo.
Há uma frase, cuja autoria não consegui identificar com segurança, que sintetiza uma possível transformação da política brasileira: “A direita não está se dividindo, está se definindo.”
Talvez seja essa uma das reflexões mais importantes que a derrota de Flávio Bolsonaro permite desenvolver.
Durante anos, parcela significativa da direita brasileira organizou sua identidade em torno de Jair Bolsonaro e, posteriormente, de sua família.
O bolsonarismo tornou-se uma força eleitoral expressiva, mas sua própria expansão criou uma dificuldade: distinguir a defesa de princípios conservadores da fidelidade pessoal a uma liderança.
Os quase 60 milhões de votos recebidos por Flávio Bolsonaro demonstram que essa identidade permanece relevante. Não há fundamento para anunciar seu desaparecimento.
Mas a derrota abre espaço para uma pergunta necessária: a direita brasileira precisa de um Bolsonaro para existir?
O conservadorismo possui tradições políticas, filosóficas e culturais anteriores a 2018. Suas discussões sobre liberdade econômica, responsabilidade individual, limites ao poder estatal, valores familiares e preservação institucional não pertencem exclusivamente a uma pessoa ou a uma família.
O desafio da direita será transformar a energia eleitoral acumulada nos últimos anos em identidade política própria, capaz de sobreviver aos líderes que a mobilizaram.
A direita não precisa necessariamente abandonar sua história recente. Precisa demonstrar que é maior do que seus protagonistas.
E uma nova geração já ocupa espaços importantes nesse cenário.
Nikolas Ferreira, aos 30 anos, recebeu mais de 3,1 milhões de votos para deputado federal em Minas Gerais. Lucas Pavanato, aos 28, ultrapassou os três milhões de votos em São Paulo. Carlos Jordy também integra uma geração de parlamentares identificados com pautas conservadoras e forte presença no debate público.
Esses nomes representam capacidade de comunicação, mobilização e formação de identidade política entre parcelas do eleitorado mais jovem.
Contudo, popularidade não equivale automaticamente a preparo para governar. A passagem da militância à liderança nacional exige domínio de políticas públicas, capacidade administrativa, construção de consensos e responsabilidade institucional.
O surgimento de novos nomes também não se limita à direita.
Em Pernambuco, Raquel Lyra representa outra expressão dessa transição geracional.
Advogada, ex-delegada da Polícia Federal, ex-deputada estadual e ex-prefeita de Caruaru, tornou-se a primeira mulher eleita governadora do estado. Em 2026, conquistou a reeleição ainda no primeiro turno, com 53,27% dos votos válidos, derrotando João Campos.
Sua trajetória acrescenta uma dimensão relevante à discussão: a renovação política não depende exclusivamente da força das redes sociais ou do desempenho parlamentar. Também pode nascer da experiência administrativa, da construção de alianças e do exercício efetivo de responsabilidades executivas.
João Campos, por sua vez, representa outra vertente dessa geração, vinculada à tradição política pernambucana e à herança de Eduardo Campos.
Adversários eleitorais, Raquel e João ilustram como uma nova geração pode disputar projetos distintos sem que suas trajetórias precisem ser reduzidas à polarização nacional entre Lula e Bolsonaro.
A diversidade desses nomes demonstra que a renovação política brasileira não pertence a uma única corrente ideológica.
O desafio não será simplesmente substituir políticos mais velhos por políticos mais jovens. Será substituir a dependência de personalidades pela afirmação de princípios, projetos e responsabilidades.
A verdadeira renovação não acontece quando muda a idade de quem governa, mas quando muda a maneira de compreender e exercer o poder.
O lulismo depois de Lula
A esquerda brasileira enfrentará um desafio igualmente profundo.
Pelas regras constitucionais vigentes, Lula não poderá disputar uma terceira eleição presidencial consecutiva em 2030.
Sua trajetória marcou profundamente a política brasileira, mas a força de um partido não deveria depender indefinidamente da presença de uma única pessoa.
O PT possui organização nacional, representação parlamentar, governos, militância e identidade ideológica. Nada disso desaparece automaticamente com a saída de Lula da disputa presidencial.
Entretanto, a sucessão apresenta uma dificuldade objetiva: encontrar uma liderança capaz de mobilizar o eleitorado para além da figura que simboliza o partido há décadas.
O possível enfraquecimento do lulismo não significaria necessariamente o fim da esquerda, assim como o enfraquecimento do bolsonarismo não significaria o fim da direita.
Pelo contrário.
A diminuição do personalismo poderá permitir que ambos os campos recuperem o debate programático, a formação de novas lideranças e a disputa por projetos nacionais.
O país não precisa eliminar suas divergências ideológicas. Precisa impedir que elas continuem subordinadas à veneração de indivíduos.
A nova geração diante de uma velha conta
O surgimento de novas lideranças não significa que o Brasil lhes entregará um país livre de dificuldades.
Quem assumir a Presidência em 2031 encontrará compromissos fiscais, despesas obrigatórias, pressões sociais e uma estrutura orçamentária que limita a liberdade de escolha dos governantes.
As medidas anunciadas em 2026, na medida em que forem implementadas e produzirem efeitos permanentes, poderão ampliar essas restrições.
A legislação fiscal não desaparece com a alternância de poder. Tampouco a dívida pública se extingue com a mudança de presidente.
A próxima geração precisará demonstrar que sabe fazer aquilo que tantas vezes faltou à política brasileira: distinguir o desejável do financeiramente possível.
Será necessário abandonar a ideia de que toda demanda social pode ser resolvida pela criação de um novo benefício, independentemente de sua fonte de custeio.
A responsabilidade fiscal não é um capricho contábil. É uma condição para que políticas públicas possam existir de maneira sustentável.
A verdadeira renovação exigirá coragem para contrariar expectativas, rever prioridades e reconhecer que governar significa escolher.
Mas há outra questão, talvez ainda mais delicada, que acompanhará essa transição.
O Supremo Tribunal Federal e a vigilância constitucional
A perspectiva de renovação política exige atenção permanente às condições institucionais que permitirão sua realização.
O Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News, instaurado de ofício em março de 2019, tornou-se um dos episódios mais controversos da história recente do Supremo Tribunal Federal.
Em outubro de 2026, o ministro Edson Fachin passou a revisar procedimentos relacionados à investigação. Foram identificados 104 procedimentos vinculados ao inquérito principal, entre petições e investigações preliminares. Até 29 de outubro, ao menos oito investigações haviam sido arquivadas ou declaradas encerradas.
Entre os fundamentos dos arquivamentos estavam insuficiência de provas, prescrição e esgotamento da finalidade investigativa.
A extensão temporal e material desses procedimentos suscita questionamentos sobre competência, imparcialidade, duração razoável do processo, liberdade de expressão e devido processo legal.
Embora o STF tenha reconhecido a constitucionalidade da instauração do inquérito, essa decisão não impede o exame crítico da legalidade e da proporcionalidade das medidas concretamente adotadas.
A autoridade judicial não pode ser confundida com infalibilidade.
A Constituição foi concebida para limitar o poder, inclusive o poder daqueles que receberam a missão de interpretá-la.
É por isso que a simples existência de cláusulas pétreas não constitui garantia suficiente contra a deterioração das instituições democráticas.
O voto periódico, a separação dos Poderes e os direitos fundamentais estão protegidos pelo texto constitucional. Sua efetividade, entretanto, depende da observância desses limites pelos próprios agentes públicos.
A possibilidade de uma ruptura institucional capaz de comprometer a normalidade das eleições de 2030 permanece uma hipótese, não um acontecimento demonstrado ou inevitável.
Mas a hipótese merece vigilância democrática, especialmente diante de controvérsias concretas sobre os limites da atuação estatal.
Não se trata de afirmar, sem provas, a existência de um plano para impedir eleições futuras. Trata-se de defender que nenhuma instituição, por mais elevada que seja sua posição constitucional, pode ficar imune ao controle público, à crítica jurídica e à exigência de respeito às garantias individuais.
A democracia não se protege pela concentração ilimitada de poder. Protege-se pela existência de limites efetivos ao seu exercício.
A renovação geracional somente terá sentido se os brasileiros conservarem a liberdade de escolher seus governantes e de criticá-los.
2030: a oportunidade de votar por um futuro
Talvez estejamos diante de uma oportunidade que o Brasil não experimenta há décadas.
De um lado, uma direita que poderá redescobrir sua identidade para além do sobrenome Bolsonaro. De outro, uma esquerda que precisará demonstrar capacidade de renovação para além da figura de Lula.
Entre ambas, novas lideranças, diferentes experiências administrativas, outras formas de comunicação e uma geração que não participou diretamente de muitos dos conflitos que moldaram os protagonistas da política contemporânea.
Nada garante que a polarização desaparecerá. Ela poderá sobreviver aos próprios líderes que a simbolizam.
Mas existe a possibilidade de que a próxima eleição presidencial deixe de ser um plebiscito permanente sobre dois personagens e volte a representar uma escolha entre projetos de país.
Não será tarefa simples.
Os novos líderes terão de enfrentar a herança fiscal dos governos anteriores, resistir à tentação do populismo, respeitar as instituições e demonstrar que juventude não é sinônimo automático de renovação moral ou intelectual.
Também precisarão compreender que a democracia não exige unanimidade nem devoção. Exige divergência legítima, alternância de poder, responsabilidade pública e respeito aos direitos daqueles que pensam diferente.
O Brasil já perdeu oportunidades de renovação pela morte prematura de lideranças, pelo desgaste de outras e pela incapacidade de superar antigas rivalidades.
Não deveríamos desperdiçar outra geração mantendo o país aprisionado à idolatria de homens que, por maiores que sejam suas trajetórias, não podem ser confundidos com a própria nação.
Talvez a grande esperança de 2030 esteja justamente nisso: deixar de procurar salvadores e voltar a procurar governantes.
A derrota de 2026 pode conter as sementes de uma renovação. A vitória pode revelar os limites de um ciclo que se aproxima de sua conclusão.
E, se as instituições preservarem as condições de uma disputa verdadeiramente livre, o Brasil poderá finalmente experimentar algo que a polarização nos fez esquecer: votar a favor de um futuro, em vez de votar eternamente contra um passado.