A capitania hereditária que nunca existiu — e a dinastia que agora tenta nascer
De repente, a imprensa nacional descobriu Pernambuco.
Como novos Cabrais desembarcando no litoral, alguns portais passaram a anunciar que a família Campos-Arraes governaria o Estado como se fosse sua proprietária, impedindo a alternância do poder. A narrativa é sedutora: contém sobrenomes tradicionais, laços familiares, herdeiros jovens e a indispensável pitada de coronelismo nordestino que tanto agrada aos analistas instalados a milhares de quilômetros do Recife.
A história, entretanto, possui um defeito incômodo: ela aconteceu.
Miguel Arraes governou Pernambuco em três mandatos, todos conquistados pelo voto popular. O primeiro, iniciado em 1963, foi brutalmente interrompido pelo golpe militar de 1964. Preso no Palácio do Campo das Princesas, Arraes foi arrancado do governo não pelos eleitores pernambucanos, mas por uma ditadura que preferia governadores obedientes e, posteriormente, governadores biônicos escolhidos sem participação popular.
Seu retorno ao governo somente ocorreu em 1986, mais de vinte anos depois. Não houve, portanto, continuidade familiar, domínio permanente nem transmissão hereditária do cargo. Houve prisão, cassação, exílio e uma longa travessia pelo deserto político.
Após o segundo mandato de Arraes, o governo foi assumido por seu vice, Carlos Wilson. Em seguida, Joaquim Francisco foi eleito governador pelo voto popular, derrotando Jarbas Vasconcelos. Pernambuco continuava cometendo a extravagância democrática de escolher seus governantes.
Em 1992, Eduardo Campos disputou a Prefeitura do Recife. Era jovem, carregava o sobrenome do avô e terminou em quinto lugar. A eleição foi vencida por Jarbas Vasconcelos. O sangue de Arraes, ao que parece, ainda não possuía o poder mágico que agora lhe atribuem.
Em 1994, Miguel Arraes foi convocado novamente para disputar o governo. Venceu Gustavo Krause e iniciou seu terceiro mandato. Durante esse período, foi aprovada a emenda constitucional que permitiu a reeleição para os cargos executivos. Arraes tentou conquistar um quarto mandato, mas foi derrotado por Jarbas Vasconcelos.
Jarbas governou Pernambuco por sete anos e renunciou para disputar o Senado, deixando o governo para Mendonça Filho. O grupo político denominava-se “União por Pernambuco” e seus integrantes chegaram a projetar uma permanência de duas décadas no comando estadual.
Curioso. Quando adversários prometem permanecer vinte anos no poder, chama-se projeto político. Quando os socialistas vencem eleições, chama-se oligarquia.
A hegemonia da União por Pernambuco começou a rachar em 2000, quando Roberto Magalhães perdeu a Prefeitura do Recife para João Paulo, do PT. Formou-se, então, um cenário dividido: o governo estadual permanecia com a União por Pernambuco, enquanto a capital era administrada pela Frente Popular.
No plano nacional, Lula finalmente chegou à Presidência em 2002, depois de três derrotas consecutivas. Sua eleição modificou profundamente o cenário político brasileiro e produziu efeitos especialmente intensos em Pernambuco.
Eduardo Campos ainda carregava o peso do chamado escândalo dos precatórios. Enquanto buscava resolver juridicamente a questão, evitou uma exposição eleitoral prematura, fortaleceu alianças em Brasília e participou do governo Lula. Roberto Amaral assumiu inicialmente o Ministério da Ciência e Tecnologia; posteriormente, Eduardo ocupou a pasta.
Livre das acusações que o haviam transformado numa espécie de “leproso político”, Eduardo retornou ao centro do tabuleiro pernambucano. Já não era apenas o neto de Arraes. Era ministro, articulador nacional e presidente do PSB.
Nas eleições de 2006, Lula buscava a reeleição. Em Pernambuco, o PT lançou Humberto Costa, ex-ministro da Saúde, atingido politicamente por investigações como as chamadas Máfia dos Vampiros e Máfia das Sanguessugas — acusações das quais se livraria posteriormente, mas que causaram enorme desgaste eleitoral naquele momento.
Eduardo Campos deixou o ministério para disputar o governo. Começou a campanha com cerca de 4% das intenções de voto e o apoio de poucos prefeitos, alguns deles reunidos pela articulação de Fernando Bezerra Coelho.
Não era exatamente a entrada triunfal de um príncipe na capitania da família.
Lula não ofereceu palanque exclusivo. Era apoiado tanto por Humberto Costa quanto por Eduardo Campos. Mendonça Filho, então governador, concentrou sua estratégia no confronto com o candidato petista, enquanto Eduardo crescia por fora. O cálculo falhou. Eduardo chegou ao segundo turno contra Mendonça e recebeu parcela decisiva dos votos que haviam sido destinados a Humberto.
Foi eleito governador pelo voto direto.
Mais uma vez, não houve transmissão automática entre avô e neto. Miguel Arraes havia falecido em 13 de agosto de 2005, antes daquela eleição. Eduardo não recebeu do avô o governo, a caneta nem a máquina estadual. Recebeu uma história política importante, evidentemente, mas precisou enfrentar ostracismo, acusações, reconstruir alianças e conquistar votos num cenário próprio.
Em 2010, Eduardo Campos chegou à reeleição ostentando índices que o colocavam entre os governadores mais bem avaliados do país. Foi reeleito com 82,84% dos votos válidos, contra 14,06% de Jarbas Vasconcelos. A diferença superou três milhões de votos.
Pode-se criticar Eduardo Campos por muitas coisas. O que não se pode fazer, sem violentar os fatos, é reduzir suas duas vitórias ao sobrenome do avô.
Até então, PSB e PT pareciam amigos inseparáveis. Eduardo, porém, enxergava um projeto mais amplo. Participou das articulações nacionais envolvendo Gilberto Kassab, Raimundo Colombo e o recém-criado PSD, partido que posteriormente se tornaria uma das principais forças do chamado Centrão.
Em 2012, Eduardo rompeu politicamente com o PT no Recife. A aliança que existia desde a primeira eleição de João Paulo foi desfeita. O PSB lançou Geraldo Júlio, técnico sem experiência eleitoral, enquanto o PT mergulhava numa guerra interna.
Impulsionado pela extraordinária popularidade de Eduardo, Geraldo foi eleito prefeito no primeiro turno com 51,15% dos votos válidos. Superou por apenas 1,15 ponto percentual a barreira necessária para evitar o segundo turno, embora tenha vencido o segundo colocado por margem muito maior.
O rompimento não era apenas municipal. Eduardo construía um projeto presidencial próprio e afastava-se progressivamente do governo petista. Defendia novo pacto federativo, reformas estruturais e autonomia institucional para o Banco Central. Seu projeto econômico incorporava propostas mais próximas do centro liberal do que do velho estatismo petista.
Eduardo não pretendia ser um simples auxiliar de Lula. Pretendia sucedê-lo como referência nacional.
No dia 13 de agosto de 2014, porém, sua trajetória foi interrompida por um acidente aéreo. A morte precoce provocou uma comoção nacional e alterou completamente a eleição pernambucana.
Paulo Câmara, outro técnico lançado por Eduardo, foi eleito governador. Evidentemente, Eduardo não planejara morrer para eleger seu sucessor. A tragédia não foi uma estratégia política. Mas é impossível negar que a comoção produzida por sua morte teve efeitos eleitorais profundos.
Com a ausência de Eduardo, o PSB nacional perdeu seu principal eixo. Roberto Amaral assumiu interinamente a presidência. Em outubro de 2014, Carlos Siqueira foi eleito por aclamação, em chapa única e sem disputa efetiva, para comandar nacionalmente o partido.
A partir daí, o PSB começou a procurar novamente o caminho de volta ao PT. Aproximava-se, mas guardava certa distância regulamentar, pois o mensalão e a Operação Lava Jato ainda produziam danos políticos consideráveis.
Em Pernambuco, os dirigentes socialistas encontraram outro caminho para tentar conservar o poder: transformar a memória de Eduardo Campos em patrimônio eleitoral permanente.
João Campos havia sido preparado pelo pai para seguir a engenharia. Depois da morte de Eduardo, entrou diretamente no coração da máquina estadual. Em 2016, aos 22 anos, tornou-se chefe de gabinete do governador Paulo Câmara. Dois anos depois, foi eleito deputado federal com votação recorde. Em 2020, após dois mandatos de Geraldo Júlio, elegeu-se prefeito do Recife.
Seu irmão, Pedro Campos, foi eleito deputado federal em 2022.
Antes deles, Ana Arraes, mãe de Eduardo, havia sido eleita deputada federal em 2006 e reeleita em 2010. Mais tarde, foi escolhida pelo Congresso Nacional para ocupar uma vaga no Tribunal de Contas da União.
A sucessão começou a adquirir o aspecto de estacionamento familiar. Um integrante guardava a vaga até a chegada do seguinte. Era o “flanelinha eleitoral” da dinastia: ocupava o espaço, vigiava o território e aguardava o próximo veículo com o mesmo sobrenome.
Até a segunda eleição de Eduardo Campos ao governo, pode-se reconhecer uma trajetória marcada principalmente pelos méritos próprios de Miguel Arraes e do próprio Eduardo. Ambos enfrentaram derrotas, adversários poderosos e contextos políticos distintos.
Com os descendentes, porém, a história mudou.
João e Pedro não começaram do ponto zero. Receberam sobrenome conhecido, estrutura partidária, memória afetiva, exposição pública e espaços políticos previamente organizados. Foram eleitos legitimamente, mas partiram de uma linha de largada à qual quase nenhum jovem pernambucano teria acesso.
Cabe-lhes, portanto, a moderna alcunha de nepo babies da política: herdeiros que apresentam como obra própria aquilo que, em larga medida, receberam pronto — ou pelo menos bastante adiantado.
O parentesco não os torna incapazes. Tampouco retira a legitimidade dos votos recebidos. Mas fingir que disputaram eleições nas mesmas condições de um jovem sem sobrenome, máquina ou capital político familiar seria transformar ingenuidade em método científico.
A eleição municipal de 2020 tornou essa contradição ainda mais evidente.
João Campos enfrentou sua prima Marília Arraes, então candidata pelo PT. A disputa familiar foi brutal. O marketing socialista explorou o desgaste petista, cobrou autocrítica do partido e prometeu distância. Depois da vitória, João declarou expressamente que não haveria indicação política do PT em seu governo.
O recado era simples: o PT servia como adversário conveniente e depósito de todas as mazelas políticas.
Quatro anos se passaram, e o amor voltou.
Agora, João Campos apresenta-se como aliado incondicional de Lula, reivindica a exclusividade de seu apoio em Pernambuco e tenta transformar o presidente no principal avalista de sua candidatura ao governo estadual.
Em 2020, o PT era uma companhia que precisava ser escondida. Em 2026, Lula virou fotografia obrigatória no porta-retratos.
Não se trata de amadurecimento ideológico. Trata-se de conveniência eleitoral.
A reaproximação atual possui pouca relação com o projeto que Eduardo Campos defendia para o Brasil em 2014. Eduardo rompeu com o PT para construir uma alternativa nacional. João aproxima-se do PT para tentar reconstruir o domínio estadual do PSB.
Um desejava superar Lula. O outro disputa sua bênção.
Eduardo apresentou-se como alternativa ao sistema petista. João apresenta-se como soldado do presidente. Chamar isso de continuidade do legado é pedir à história que aceite uma falsificação de assinatura.
Também causa espécie observar Pedro Campos integrado a uma trincheira política nacional ao lado de figuras como Lindbergh Farias, Flávio Dino e André Janones, representantes de um campo político bastante diferente daquele que Eduardo buscava construir ao final da vida.
Ninguém pode afirmar com certeza o que Eduardo Campos ou Miguel Arraes fariam diante do cenário atual. Os mortos não concedem entrevistas, não escrevem notas e não participam de convenções. Mas os posicionamentos históricos de ambos permitem perceber que a submissão política do PSB pernambucano ao projeto petista dificilmente passaria sem severa contestação.
A imprensa nacional erra ao apresentar a história dos Campos-Arraes como uma linha contínua de domínio estadual. A cronologia demonstra sucessivas derrotas, interrupções e alternâncias. Arraes, Eduardo, Jarbas, Joaquim Francisco, Carlos Wilson, Mendonça Filho, Paulo Câmara e Raquel Lyra chegaram ao poder em contextos distintos.
A capitania hereditária descrita retrospectivamente jamais existiu daquela maneira.
O risco verdadeiro está no presente.
A dinastia que não existiu no passado pode estar sendo cuidadosamente construída agora, mediante a transformação da memória de Eduardo em capital hereditário e do PSB em estacionamento eleitoral de uma única família.
João Campos não herdou apenas um sobrenome. Herdou uma história que procura reescrever conforme a conveniência do momento. Em 2020, o PT era o porão que precisava ser lacrado; em 2026, Lula tornou-se a janela pela qual pretende entrar novamente no Palácio do Campo das Princesas.
João pode proclamar-se herdeiro de Arraes e Eduardo. Mas herança biológica não transfere automaticamente coerência, coragem ou visão política.
Se continuar reduzindo o PSB a veículo auxiliar do lulismo e a reserva de mercado da família, talvez João Campos não seja o renovador que sua propaganda anuncia.
Talvez seja apenas o coveiro do partido: jovem, popular, sorridente — e já com a pá nas mãos.