sábado, 17 de outubro de 2026

A Capela de São João – Instituto Ricardo Brennand Recife Pernambuco Brasil

Por Bruno Brennand • 14 de setembro de 2026 • 11 min de leitura

Capela Nossa Senhora das Graças — Instituto Ricardo Brennand

Esclarecimento sobre o nome

A capela localizada nas terras do Instituto Ricardo Brennand não se chama oficialmente “Capela de São João”. Seu nome correto é Capela Nossa Senhora das Graças.

A associação com São João decorre do local: o Instituto foi construído nas terras do antigo Engenho São João da Várzea, posteriormente Usina São João. O complexo também possui o Castelo de São João, onde está instalado o Museu de Armas. Portanto:

  • São João identifica o antigo engenho e o castelo-museu;
  • Nossa Senhora das Graças é a padroeira e denominação da capela.

Ela também não deve ser confundida com a Capela da Imaculada Conceição, situada na vizinha Oficina Francisco Brennand e projetada pelos arquitetos Paulo Mendes da Rocha e Eduardo Colonelli.

História da capela

A Capela Nossa Senhora das Graças nasceu da iniciativa do industrial, colecionador e mecenas pernambucano Ricardo Coimbra de Almeida Brennand, fundador do Instituto Ricardo Brennand, e de sua esposa, Graça Maria Monteiro Brennand.

O templo foi dedicado a Nossa Senhora das Graças em homenagem à própria Graça Brennand. Mais do que uma edificação complementar ao museu, a capela foi concebida como espaço efetivamente religioso, destinado à celebração de missas, batizados e matrimônios.

Foi inaugurada e solenemente abençoada em maio de 2014, pelo então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, OSB. A capela passou a integrar a vida religiosa da Paróquia da Várzea, não sendo, portanto, apenas uma construção cenográfica ou um salão de eventos com aparência eclesiástica.

Autoria e profissionais envolvidos

A construção reuniu predominantemente profissionais e artistas pernambucanos:

Elemento Autor ou responsável
Projeto arquitetônico Augusto Reinaldo Alves Filho
Desenho técnico Edgar Ulysses de Farias Filho
Talhas e trabalhos de carpintaria Mestre Nido — Eronildes José Carlos Honorato
Vitrais Suely Cisneiros Muniz
Rosáceas Sérgio Mantur
Esculturas de anjos Ricardo Cavani Rosas
Imagem escultórica central Elias Sultanum
Projeto de iluminação Regina Coeli de Barros e Mohana Barros

Assim, quando se fala nos “cristais” da capela, o termo tecnicamente mais apropriado é vitrais. A autoria dessas composições é atribuída a Suely Cisneiros Muniz, enquanto as rosáceas foram realizadas por Sérgio Mantur.

Estilo arquitetônico

A capela foi construída em linguagem neogótica, isto é, uma interpretação contemporânea da arquitetura gótica medieval. Não se trata de uma igreja medieval transplantada para Pernambuco, mas de uma edificação do século XXI que recupera conscientemente elementos formais da tradição europeia.

Entre as características góticas reinterpretadas estão:

  • acentuada verticalidade;
  • arcos apontados ou ogivais;
  • grandes vitrais coloridos;
  • rosáceas;
  • nave longitudinal;
  • cobertura elevada;
  • fachadas marcadas por torres e pináculos;
  • talhas e mobiliário de aparência medieval;
  • utilização dramática da luz;
  • tijolos aparentes, que conferem ao edifício aparência antiga e austera.

A verticalidade não tem função apenas estética. Na tradição gótica, a elevação das paredes, torres e abóbadas simboliza o movimento da alma em direção ao alto. A arquitetura procura retirar o olhar do plano cotidiano e conduzi-lo ao transcendente.

Embora tenha aparência histórica, o edifício reúne estrutura, climatização e recursos técnicos contemporâneos. Trata-se, portanto, de uma interpretação moderna do gótico, adaptada ao clima, às necessidades litúrgicas e às condições construtivas pernambucanas.

Dimensões e capacidade

A capela possui aproximadamente:

  • 15 metros de largura;
  • 40 metros de comprimento;
  • 600 metros quadrados de área interna;
  • 21 metros de altura;
  • capacidade total divulgada de aproximadamente 500 pessoas;
  • cerca de 300 lugares sentados.

O templo está inserido em uma área ajardinada de aproximadamente 10 mil metros quadrados, cercada por gramados, lagos e esculturas em mármore. O estacionamento foi projetado para comportar aproximadamente 200 veículos.

Algumas publicações recentes mencionam capacidade superior a 500 pessoas, mas o registro histórico mais detalhado da inauguração indica 500 pessoas, das quais 300 sentadas.

Materiais empregados

A construção caracteriza-se pela combinação de técnicas modernas com acabamentos destinados a produzir uma atmosfera medieval:

  • tijolos aparentes, inclusive peças produzidas especialmente para a obra;
  • madeira trabalhada nas portas, bancos, mobiliário e talhas;
  • vidro colorido e estruturas metálicas nos vitrais;
  • elementos pétreos e esculturas em mármore nos jardins;
  • revestimentos e componentes estruturais contemporâneos;
  • entalhes em madeira dourada e policromada no altar histórico;
  • iluminação artificial cuidadosamente dirigida para valorizar o altar, os vitrais e a verticalidade da nave.

As fontes públicas consultadas não apresentam uma ficha completa de engenharia com a especificação de todos os materiais estruturais. Portanto, não é possível afirmar com segurança a composição integral das fundações, pilares, cobertura e argamassas.

Os vitrais e as rosáceas

Os vitrais exercem uma dupla função. Arquitetonicamente, filtram a intensa luminosidade pernambucana. Simbolicamente, transformam a luz natural em luz narrativa e espiritual.

A luz atravessa o vidro colorido e projeta diferentes tonalidades sobre a nave. O efeito muda conforme o horário do dia, fazendo com que o espaço nunca seja visualmente estático. Essa concepção remonta às catedrais medievais, nas quais a luz filtrada pelos vitrais era entendida como metáfora da presença divina iluminando o mundo material.

Os vitrais foram executados por Suely Cisneiros Muniz. As rosáceas — composições circulares inspiradas nas grandes janelas radiais das catedrais góticas — são atribuídas a Sérgio Mantur.

O altar histórico

O maior elemento histórico do interior é o altar-mor, procedente do barroco espanhol. Ele não foi construído originalmente para a capela: trata-se de uma peça antiga adquirida para integrar o conjunto.

O altar apresenta:

  • madeira entalhada;
  • acabamento dourado;
  • elementos policromados;
  • colunas ornamentadas;
  • nichos;
  • motivos vegetais;
  • cenas relacionadas à vida de Santo Isidoro Lavrador, padroeiro de Madri;
  • ao centro, a representação de Nossa Senhora das Graças.

Há divergência quanto à datação exata. Algumas descrições o situam no século XVIII, enquanto registros anteriores levantam a possibilidade de origem no final do século XVII. Sem documentação catalográfica mais precisa disponível publicamente, é prudente descrevê-lo simplesmente como um altar barroco espanhol dos séculos XVII–XVIII.

O contraste é relevante: a arquitetura da capela é neogótica, mas o altar é barroco. Não existe, portanto, unidade histórica rigorosa entre edifício e retábulo. A composição segue uma lógica de colecionismo, reunindo peças de diferentes períodos para produzir um ambiente sacro monumental.

Imagens e esculturas

A imagem escultórica central é atribuída ao santeiro Elias Sultanum. O interior também apresenta um Cristo suspenso em tamanho natural, cuja colocação amplia o eixo vertical entre a nave, o altar e a cobertura.

Na área externa encontram-se esculturas de anjos realizadas por Ricardo Cavani Rosas. O registro histórico de Leonardo Dantas menciona 14 anjos; algumas publicações posteriores falam em onze. A divergência pode decorrer da contagem apenas das esculturas visíveis na fachada ou de alterações na disposição do conjunto.

Esses anjos reforçam o caráter processional da chegada. O visitante não passa diretamente do jardim para o interior: é conduzido por uma sequência de símbolos que prepara a transição do espaço profano para o sagrado.

Mobiliário e trabalhos em madeira

As talhas, a carpintaria e parte significativa do mobiliário foram confiadas ao Mestre Nido, nome profissional de Eronildes José Carlos Honorato.

Os bancos, portas, painéis e peças entalhadas seguem a linguagem medieval adotada pelo edifício. A madeira escura contrasta com a luz colorida dos vitrais e com o douramento do altar. Essa combinação produz três planos visuais:

  1. a madeira escura representa solidez e recolhimento;
  2. os vitrais introduzem cor e movimento;
  3. o altar dourado concentra a atenção litúrgica.

Não encontrei documentação pública segura sobre as espécies de madeira utilizadas ou sobre a procedência individual de cada móvel. Afirmar uma madeira específica sem o inventário técnico seria especulação.

Os jardins e a integração com a paisagem

A capela foi implantada à distância do núcleo principal do Instituto. O deslocamento até ela cria uma espécie de preparação: o visitante deixa os castelos, as armas e as galerias para entrar num espaço mais silencioso.

Os jardins são compostos por:

  • amplos gramados;
  • espelhos d’água e lagos;
  • árvores e vegetação tropical;
  • caminhos processionais;
  • esculturas em mármore;
  • espaços destinados à contemplação e à fotografia.

A implantação produz um contraste deliberado. A arquitetura remete à Europa medieval, mas está cercada pela luminosidade e pela vegetação tropical do Recife. A capela não tenta esconder esse contraste; sua singularidade nasce justamente dele.

Relação com o Engenho São João

A área ocupada pelo Instituto pertenceu ao antigo Engenho São João da Várzea, cuja história remonta ao período colonial. O engenho é associado a João Fernandes Vieira, senhor de engenho e uma das principais lideranças da Insurreição Pernambucana contra o domínio neerlandês.

Posteriormente, o local tornou-se a Usina São João. O nome histórico foi preservado no Castelo de São João, edifício que abriga parte importante da coleção de armas, armaduras e objetos históricos de Ricardo Brennand.

A capela, embora recente, foi implantada nesse território carregado de memória. Ela reúne, assim, três tempos:

  • a história colonial do Engenho São João;
  • as referências artísticas da Europa medieval e barroca;
  • a atuação cultural contemporânea do Instituto Ricardo Brennand.

Significado religioso e cultural

A Capela Nossa Senhora das Graças ocupa uma posição incomum. É simultaneamente:

  • templo católico consagrado;
  • obra de arquitetura neogótica contemporânea;
  • espaço de preservação de um altar barroco histórico;
  • ambiente expositivo de esculturas, talhas e vitrais;
  • memorial afetivo de Ricardo Brennand à esposa;
  • extensão religiosa e cultural do Instituto;
  • espaço utilizado para missas, batizados, casamentos e solenidades.

Seu valor não está na antiguidade do edifício, pois ele foi inaugurado em 2014. O que o distingue é a reunião de técnicas artesanais pernambucanas, referências arquitetônicas europeias e objetos históricos num espaço religioso vivo.

Texto interpretativo

Nas terras do antigo Engenho São João, a Capela Nossa Senhora das Graças ergue-se como uma construção do presente vestida com a linguagem do passado. Suas torres, rosáceas e janelas ogivais recordam o mundo medieval, mas foram levantadas por mãos pernambucanas sob a luz intensa do Recife.

A capela não é uma sobrevivente da Idade Média. É uma evocação. Ricardo Brennand não procurou reconstruir arqueologicamente uma catedral europeia, mas criar um espaço em que arquitetura, coleção, fé e memória familiar pudessem conviver.

Por fora, os tijolos aparentes e a verticalidade conferem austeridade ao templo. Por dentro, a madeira escura dos móveis conduz o olhar ao altar dourado. Os vitrais de Suely Cisneiros transformam a luz tropical em matéria colorida; as rosáceas de Sérgio Mantur retomam o símbolo medieval da ordem divina; os anjos de Cavani Rosas guardam a passagem entre os jardins e o espaço sagrado.

No fundo da nave, o altar barroco espanhol introduz outro tempo histórico. Seus entalhes e cenas da vida de Santo Isidoro Lavrador atravessaram séculos e distâncias até encontrarem lugar na Várzea. Ao centro, Nossa Senhora das Graças dá nome ao templo e recorda a homenagem de Ricardo Brennand à mulher com quem construiu sua história.

Essa mistura não obedece à pureza acadêmica dos estilos. Gótico, barroco e artesanato contemporâneo coexistem. Para alguns críticos, isso pode representar ecletismo excessivo. Para Ricardo Brennand, entretanto, a arquitetura parecia ter outra função: não reproduzir um período com rigor arqueológico, mas dar corpo a uma visão de mundo fundada na permanência, na memória e na beleza.

Cercada de jardins, águas e esculturas, a capela permanece afastada do ruído dos grandes salões. O visitante chega a ela depois de atravessar um território marcado por armas, pinturas e episódios da história. Ao final desse caminho, encontra não outra coleção, mas um lugar de silêncio.

Fontes: Instituto Ricardo Brennand, Diario de Pernambuco — história e acervo do Instituto, Leonardo Dantas — história e ficha artística da capela, Oficina Francisco Brennand — distinção entre as duas capelas

 

 

 

 

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