Quando Deus Não Responde Como Esperamos: Habacuque, Leonard Cohen e a Crise da Fé Infantil – Séries músicas
1. Introdução — Quando o homem exige respostas de Deus
“Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?”
Habacuque 1:2
“a holy or the broken Hallelujah.”
Leonard Cohen, Hallelujah
Separados por mais de dois milênios, um profeta hebreu e um poeta judeu canadense começam, cada qual à sua maneira, diante do mesmo desconforto: a realidade não corresponde àquilo que o homem esperava dela — nem, sobretudo, àquilo que esperava de Deus.
Habacuque olha ao redor e não compreende. Há violência, injustiça, perversão do direito e aparente triunfo dos maus. Sua primeira palavra não é de louvor. É uma pergunta. E não uma pergunta serena, acadêmica ou abstrata. Há quase uma acusação: “Até quando?”. Ele clamou, esperou e, segundo sua percepção, Deus permaneceu em silêncio.
Leonard Cohen percorre caminho literariamente distinto, mas existencialmente próximo. Em Hallelujah, o sagrado aparece misturado à fragilidade humana: Davi, desejo, beleza, queda, amor, perda, sexo, solidão, fracasso e Deus. Não encontramos o aleluia límpido de quem contemplou todas as respostas. Encontramos aquilo que Cohen chama de um aleluia que pode ser santo ou quebrado.
É precisamente nesse ponto que as duas obras começam a se aproximar.
O homem quer compreender Deus antes de confiar nele. Quer que a Providência apresente suas razões, que o sofrimento revele imediatamente sua finalidade e que a justiça divina observe não apenas nossos critérios, mas também nossos prazos. Quando isso não acontece, surge a perplexidade. E, não poucas vezes, a revolta.
Há nessa atitude algo profundamente humano, mas também algo infantil.
A criança suporta mal a negativa cuja razão não compreende. Para ela, se o pai é bom, deverá conceder o que ela considera bom; se não concede, parece-lhe contraditório. O adulto espiritualmente imaturo frequentemente transfere para Deus a mesma estrutura de raciocínio: se Deus é bom, deverá agir como eu considero bom; se é justo, deverá fazer justiça no momento que considero adequado; se me ama, deverá impedir aquilo que considero insuportável.
O problema dessa lógica está menos na pergunta do que na pressuposição escondida atrás dela: imaginamos possuir informação suficiente para julgar aquilo que Deus deveria fazer.
Habacuque começa perigosamente próximo dessa fronteira.
Ele vê corretamente a violência de Judá. Sua indignação não é inventada. O direito realmente estava sendo pervertido. O erro que o livro lentamente desconstrói não está em perceber o mal, nem sequer em perguntar a Deus por que o permite. A Escritura jamais apresenta a pergunta sincera como necessariamente incompatível com a fé. Abraão perguntou. Moisés perguntou. Jó perguntou. Davi encheu os Salmos de perguntas. O próprio Cristo, na cruz, pronunciou as palavras do Salmo 22: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.
A infantilidade começa em outro lugar: quando deixamos de perguntar para aprender e começamos a perguntar exigindo que Deus se justifique perante nós.
Essa distinção é fundamental para compreender Habacuque.
Deus responde ao profeta. Mas a resposta constitui uma espécie de escândalo intelectual: levantará os caldeus. Habacuque desejava justiça; Deus anuncia Babilônia. O profeta esperava uma solução, mas recebe um novo problema. Ele não pergunta mais apenas por que Deus tolera o mal de Judá. Agora precisa perguntar como o Deus santo pode utilizar uma nação ainda mais violenta para julgar Judá.
É uma experiência conhecida de quem realmente enfrentou a questão do sofrimento: às vezes, a resposta de Deus não diminui nossas perguntas. Aumenta-as.
Também é aqui que Hallelujah encontra seu inesperado ponto de contato com Habacuque. Cohen recupera personagens bíblicos que não conheceram uma existência moralmente ordenada. Seu Davi não aparece apenas como salmista e rei, mas como homem dominado pelo desejo; Sansão surge não como o juiz poderoso, mas como aquele que teve os cabelos cortados e foi derrotado por sua própria vulnerabilidade. O aleluia emerge de dentro da contradição humana.
Não é preciso transformar Cohen em teólogo cristão — ele não o era — para perceber a força dessa imagem. Talvez seja justamente a distância entre os dois autores que torne a comparação interessante. Habacuque possui uma resposta confessional onde Cohen conserva uma ambiguidade poética. O profeta finalmente encontra Deus; Cohen parece continuar caminhando entre o sagrado e o quebrado. Entretanto, ambos percebem algo que a religiosidade superficial frequentemente esquece: existem aleluias que só podem ser pronunciados depois da ruína das certezas fáceis.
Há, portanto, dois tipos de fé muito diferentes.
Existe a fé infantil que diz: “Eu confiarei em Deus enquanto compreender seus atos”.
E existe a fé que Habacuque lentamente aprende: “Ainda que eu não compreenda seus atos, continuarei reconhecendo quem Deus é”.
Essa transformação explica por que o livro que começa com “Até quando?” consegue terminar assim:
“Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; […] todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação.”
Habacuque 3:17–18
Observe-se a violência dessa passagem contra a moderna teologia da prosperidade. Nada melhorou no cenário descrito pelo profeta. A figueira continua sem flores. A vinha continua sem fruto. A oliveira fracassa. Os campos não produzem alimento. As ovelhas desaparecem. O gado não está nos currais.
E então aparece uma palavra extraordinária: todavia.
Esse “todavia” talvez seja o verdadeiro aleluia de Habacuque.
Não é: “A figueira voltou a produzir, portanto louvarei”.
É: “A figueira não produziu; todavia louvarei”.
A fé deixou de estar subordinada às circunstâncias.
Aqui encontramos a aproximação mais fecunda com Cohen. O Hallelujah que atravessou gerações não é o canto de um homem que resolveu todas as contradições da existência. É o canto que admite que existe um aleluia pronunciado entre os fragmentos. Um aleluia que pode estar ferido, imperfeito, quase irreconhecível — mas ainda assim é pronunciado.
Habacuque irá além.
Para Cohen, o aleluia parece sobreviver às contradições da existência humana. Para Habacuque, o louvor sobrevive porque existe alguém acima dessas contradições. Sua confiança não repousa na beleza da resignação, mas no caráter daquele a quem chama “Deus da minha salvação”.
É justamente esse percurso — da pergunta à espera, da irresignação à confiança, da exigência de explicações ao “todavia”, do aleluia quebrado ao louvor que permanece — que permite colocar Habacuque e Leonard Cohen em diálogo.
Talvez ambos nos conduzam, por estradas diferentes, até uma pergunta que atravessa séculos:
O homem ainda consegue dizer “aleluia” quando Deus não lhe dá a resposta que desejava?
Habacuque responde que sim.
Mas precisa de três capítulos para aprender a dizê-lo.
Há um ponto teológico que considero importante preservar no desenvolvimento do artigo: não tratar a própria irresignação de Habacuque como infantil. Isso enfraqueceria a exegese. A Bíblia legitima o lamento e até o confronto reverente com Deus. O elemento infantil é outro: a pretensão humana de que Deus deva explicar-se segundo nossa compreensão, nosso senso de proporcionalidade e nosso calendário. Essa distinção pode se tornar uma das teses mais fortes do texto.