Currículo, Folha Corrida e Memória: O Que o Eleitor Precisa Examinar em 2026
Eleições 2026: antes do voto, currículo e folha corrida
Uma eleição presidencial não deveria começar pela propaganda. Deveria começar pelo currículo e pela folha corrida política de quem pede o voto.
No caso de Luiz Inácio Lula da Silva, existe um fato histórico que não pode ser apagado, mas também não deve ser contado de maneira juridicamente incorreta. Ele cometeu todos os crimes que lhe forma imputados. Isso é fato.
Lula foi condenado criminalmente no âmbito da Lava Jato. Sua condenação no caso do triplex passou pela primeira instância e foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e, posteriormente, pelo Superior Tribunal de Justiça. Anos depois, essas condenações perderam validade.
O STF decidiu, em 2021, que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era competente para julgar as ações referentes ao triplex, sítio de Atibaia e Instituto Lula. Por 8 votos a 3, o Plenário confirmou a anulação das ações. Posteriormente, por 7 votos a 4, manteve também a declaração de suspeição de Sergio Moro no processo do triplex.
Há uma distinção que considero fundamental: anulação processual não equivale, conceitualmente, a uma decisão absolutória de mérito declarando que os fatos investigados jamais existiram.
Mas também não seria correto afirmar que o STF comprovadamente agiu mediante um acordo com Lula para libertá-lo das condenações. Não encontrei prova documental desse pacto.
O que pode — e deve — ser objeto de debate político é outra questão: a relação histórica entre a Presidência da República e a composição do Supremo, o poder conferido aos ministros da Corte e os efeitos institucionais de suas decisões.
Também existe um detalhe cronológico incontornável. As decisões que devolveram a Lula seus direitos políticos foram tomadas em 2021. Portanto, não decorreram dos votos de Cristiano Zanin ou Flávio Dino, que somente ingressariam posteriormente no STF. Isso não elimina a discussão política sobre ministros indicados anteriormente por governos petistas, mas impede atribuir a Zanin ou Dino aquelas decisões.
O passado encontra o presente
Em 2026, outro assunto recolocou no centro da eleição as relações entre poder político, influência e interesses privados: o Banco Master.
E aqui não cabe selecionar apenas os fatos convenientes.
Lula reuniu-se com Daniel Vorcaro, então controlador do Master, em dezembro de 2024, em encontro fora da agenda oficial. Segundo informações posteriormente divulgadas, Gabriel Galípolo também participou da reunião. Lula afirmou que recebeu Vorcaro como já recebeu outros empresários e negou qualquer favorecimento.
Mais grave politicamente é a situação de seu filho.
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tornou-se alvo de três inquéritos da Polícia Federal. As investigações apuram suspeitas de tráfico de influência e corrupção relacionadas à possível atuação em benefício de empresas perante órgãos do governo federal. Sua defesa nega qualquer irregularidade.
A PF investiga, entre outros fatos, a relação de Lulinha com a lobista Roberta Luchsinger e eventual atuação para facilitar interesses privados perante órgãos federais. Há ainda investigação sobre negócios envolvendo o Ministério da Saúde. Investigação não é condenação — e essa regra precisa valer para o filho de Lula exatamente como deve valer para qualquer adversário político.
O próprio Lula declarou ontem, 1º de outubro, que não acredita que seu filho tenha feito lobby com ministros de seu governo e afirmou que ele não receberá proteção da Polícia Federal.
O problema político permanece: depois de mensalão, Lava Jato e das enormes controvérsias que atravessaram os governos petistas, o Brasil chega a 2026 novamente discutindo suspeitas de tráfico de influência envolvendo alguém situado no círculo familiar do presidente.
Crime organizado: aqui também as palavras importam
Em outubro de 2025, Lula declarou que traficantes seriam também “vítimas dos usuários”. A frase provocou forte reação e tornou-se particularmente controversa diante da violência produzida pelo narcotráfico.
Mas seria incorreto transformar essa declaração em prova de que Lula “protege facções criminosas”.
Em maio de 2026, o próprio presidente declarou que PCC e Comando Vermelho são organizações terroristas para as comunidades brasileiras, embora tenha rejeitado a possibilidade de ingerência estrangeira no combate a essas organizações.
Minha crítica, portanto, é outra.
Um presidente precisa explicar por que, diante da expansão territorial, financeira e política das organizações criminosas, empregou uma formulação capaz de apresentar o traficante também como vítima. Dependência química, consumo de drogas, narcotráfico e domínio territorial das facções são problemas diferentes e não deveriam ser confundidos pelo chefe de Estado.
E os “ditadores”?
Também aqui prefiro fatos a slogans.
As relações mantidas pelos governos Lula com regimes autoritários latino-americanos podem e devem ser examinadas individualmente — Venezuela, Cuba e Nicarágua, por exemplo — e confrontadas com a política externa brasileira, com manifestações do presidente e com a situação democrática de cada país.
Chamar genericamente alguém de “ditador” e daí concluir automaticamente que o governo brasileiro “protege ditadores” empobrece uma crítica que pode ser muito mais precisa: quais violações ocorreram, qual foi a reação brasileira e se o governo empregou o mesmo padrão de defesa da democracia que exige de seus adversários internos.
Essa comparação é muito mais incômoda do que o adjetivo.
E Flávio Bolsonaro?
O mesmo critério precisa valer para o candidato que enfrenta Lula.
Flávio não pode ser absolvido antecipadamente pelo autor deste artigo.
O caso das rachadinhas efetivamente o envolveu. Fabrício Queiroz foi seu assessor, e Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. O processo não terminou em condenação após decisões judiciais que invalidaram provas.
Agora existe outro problema que precisa ser explicado.
Documentos tornados públicos em setembro revelaram investigação contra Flávio relacionada ao Banco Master. A Polícia Federal apura possíveis crimes ligados aos recursos obtidos de Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Flávio nega irregularidades e defende que toda a investigação seja tornada pública. Mas a pergunta correta é? Qual crime ou indícios de crime nesse fato?
Portanto, se minha exigência é currículo e folha corrida, não posso esconder essa página.
Será necessário saber de onde veio o dinheiro, qual foi sua destinação e se houve ou não qualquer contrapartida ilícita. Se nada houve, que a investigação o demonstre. Se houve, que a responsabilidade seja apurada independentemente do sobrenome do investigado.
É justamente nisso que o Brasil fracassa quando transforma política em torcida: o ilícito do adversário parece crime; o do aliado, perseguição.
O voto
Depois de tantos anos, o Brasil continua diante de uma escolha que não deveria ser feita por devoção a sobrenomes.
Lula não deve ser condenado por aquilo que não está provado. Tampouco sua história pode ser reescrita como se as condenações da Lava Jato, suas posteriores anulações, as crises políticas de seus governos e as atuais investigações envolvendo pessoas próximas simplesmente não existissem.
Flávio Bolsonaro também precisa responder pelas investigações que o alcançaram e demonstrar que suas propostas — especialmente na segurança pública e no combate às organizações criminosas — são constitucionalmente possíveis, financeiramente sustentáveis e capazes de produzir resultados.
O eleitor decidirá segundo sua consciência.
Quanto a mim, depois de examinar essa trajetória política, há uma conclusão pessoal que posso antecipar sem hesitação: a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva não terá o meu voto.
Não porque alguém deva decidir por mim. Exatamente pelo contrário.
Porque voto é escolha individual. E democracia somente merece esse nome quando cada cidadão pode conhecer os fatos, desconfiar das versões oficiais, confrontar os candidatos e, ao final, dizer livremente: este é o limite que eu não atravesso.
