sábado, 17 de outubro de 2026

Francisco Brennand: o homem que transformou barro em eternidade

Por Bruno Brennand • 15 de setembro de 2026 • 7 min de leitura

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu no Recife, em 11 de junho de 1927, e morreu na mesma cidade, em 19 de dezembro de 2019. Pintor, desenhista, escultor e ceramista, tornou-se um dos artistas brasileiros mais reconhecidos pelo uso monumental da cerâmica. Sua obra não se limita a objetos isolados: ela forma um universo próprio, no qual arquitetura, escultura, pintura, natureza e símbolos parecem participar de uma mesma narrativa.

Brennand iniciou sua trajetória principalmente como pintor. Durante sua formação, aproximou-se do desenho e da literatura, mantendo longa convivência intelectual com Ariano Suassuna. Em suas passagens pela Europa, encontrou na cerâmica uma linguagem artística de possibilidades muito maiores do que inicialmente imaginava. A observação das experiências de Pablo Picasso, Joan Miró e outros artistas modernos ajudou-o a abandonar a antiga ideia de que a cerâmica seria apenas uma arte utilitária ou decorativa.

Na Itália, aprofundou o conhecimento das técnicas cerâmicas, especialmente o emprego de esmaltes e das queimas sucessivas. Esse aprendizado seria decisivo para sua obra.

A arte de Francisco Brennand

O universo artístico de Brennand é habitado por ovos, pássaros, serpentes, frutos, animais, flores, corpos fragmentados, figuras femininas, criaturas híbridas e formas que parecem situadas entre o vegetal, o humano e o fantástico. São imagens frequentemente marcadas por ambiguidades: nascimento e morte, fecundidade e destruição, beleza e inquietação, matéria e espírito.

O ovo aparece como um de seus símbolos mais recorrentes. Representa a origem, a gestação e a vida ainda encerrada em potência. As figuras fálicas, femininas e animais também fazem parte dessa reflexão sobre a sexualidade e a reprodução. Não se trata, porém, de uma arte meramente erótica. Em Brennand, a sexualidade está ligada ao mistério da criação, à continuidade da vida e à luta da matéria contra o desaparecimento.

Suas figuras não procuram reproduzir fielmente a realidade. Elas a transformam. Algumas parecem totens de uma civilização desconhecida; outras recordam guardiões, guerreiros, aves, divindades mitológicas ou seres retirados de sonhos. Há nelas algo simultaneamente antigo e moderno, como se fossem restos arqueológicos de uma cultura que nunca existiu — ou vestígios de um futuro ainda por nascer.

O barro, os esmaltes e as pinturas sobrepostas

A matéria fundamental de Brennand é a argila. Antes de chegar ao aspecto definitivo, a peça passa pela modelagem, pela secagem, pela aplicação dos revestimentos cerâmicos e pelo fogo. A queima não representa apenas uma etapa industrial: é parte decisiva da criação, porque altera a resistência, a textura e a aparência da matéria.

Brennand desenvolveu experiências com esmaltes cerâmicos e queimas sucessivas em diferentes temperaturas. A peça podia voltar ao forno mais de uma vez, recebendo novas aplicações de esmalte entre as queimas. Essas camadas sobrepostas produziam profundidade cromática, variações de brilho, transparências, manchas, fissuras e superfícies que lembram pedras, metais envelhecidos ou peles de animais.

As chamadas “pinturas sobrepostas” devem ser compreendidas dentro desse processo de acumulação de camadas. A cor não é apenas colocada sobre a superfície como numa pintura convencional: ela reage com o calor e se integra ao corpo cerâmico. Cada queima envolve transformação e risco. O artista controla a composição, a temperatura e o tempo, mas o fogo conserva certa autonomia. Por isso, duas peças submetidas a procedimentos semelhantes podem apresentar resultados diferentes.

Além da cerâmica, Brennand nunca abandonou a pintura e o desenho. Nas pinturas, trabalhava frequentemente com sucessivas camadas de tinta, correções e recobrimentos. A imagem podia ser construída, parcialmente apagada e novamente refeita. Esse processo confere densidade à superfície: sob aquilo que permanece visível existem decisões anteriores, figuras ocultadas e cores transformadas.

A Oficina Cerâmica Francisco Brennand

Em 1971, Francisco Brennand começou a ocupar as ruínas da antiga Cerâmica São João, fábrica de tijolos e telhas fundada por seu pai no início do século XX e posteriormente desativada. Localizada na Várzea, no Recife, entre remanescentes da Mata Atlântica e a paisagem do Rio Capibaribe, a fábrica abandonada foi gradualmente transformada em ateliê, museu, jardim e obra de arte.

Nascia a Oficina Cerâmica Francisco Brennand.

A antiga estrutura fabril não foi simplesmente restaurada. Brennand incorporou fornos, galpões, paredes, pátios e ruínas ao seu projeto artístico. Com o passar dos anos, o espaço recebeu milhares de esculturas, painéis, murais, pinturas e desenhos. A Oficina tornou-se uma espécie de cidade imaginária, formada por templos, colunas, fontes, praças, jardins e criaturas silenciosas.

Chamá-la de “paraíso das artes” é apropriado, desde que se compreenda o paradoxo: não é um paraíso delicado ou inteiramente sereno. É um lugar de beleza, mas também de tensão. A vegetação tropical convive com o barro queimado; a água contrasta com o fogo dos fornos; as formas ligadas à vida aparecem próximas de símbolos da morte. A Oficina parece simultaneamente fábrica, templo, jardim, ruína e santuário da criação artística.

O conjunto permanece como testemunho de uma vida dedicada à construção de uma obra total. Ali, o visitante não apenas observa esculturas colocadas dentro de um edifício. Ele entra no interior do imaginário de Francisco Brennand. A arquitetura acolhe as peças, enquanto as peças transformam a arquitetura. Tudo participa da mesma composição.

Deus, o Oleiro, e o homem como barro

A imagem do oleiro possui profunda força bíblica. Deus ordenou ao profeta Jeremias que descesse à casa de um oleiro e observasse seu trabalho:

“Como o vaso que o oleiro fazia de barro se lhe estragou na mão, tornou a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe pareceu. Então, veio a mim a palavra do Senhor: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? — diz o Senhor; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão.”
— Jeremias 18:4-6

No contexto bíblico, a imagem afirma a soberania de Deus sobre Israel e sobre as nações. O mesmo capítulo declara que Ele pode arrancar, derrubar e destruir, mas também edificar e plantar, considerando a resposta moral daqueles que estão sob seu juízo. O Oleiro não está submetido ao barro; é o barro que permanece em suas mãos.

A experiência da cerâmica ajuda a visualizar essa verdade. O oleiro examina a matéria, identifica suas imperfeições, desfaz a forma que se tornou inadequada e trabalha novamente o mesmo barro. Aquilo que parece perdido ainda pode receber outra forma enquanto permanece nas mãos do artífice.

A comparação com Francisco Brennand deve permanecer estritamente exemplificativa. Suas obras não possuem caráter divino, nem o artista pode ser equiparado ao Criador. Brennand trabalhava com uma matéria que já existia e estava sujeito às limitações do corpo, do tempo e do próprio fogo. Deus, ao contrário, é o Criador soberano da matéria, da vida e do homem.

A Oficina permite apenas contemplar, em escala humana e artística, uma distante imagem desse princípio: o barro é frágil, a forma pode se desfazer e o fogo pode alterar tudo. Contudo, nas mãos do oleiro, a matéria aparentemente arruinada pode ser novamente trabalhada. Brennand moldava a argila; Deus molda a história. Brennand produziu formas destinadas a enfrentar o tempo; somente Deus concede à criatura seu verdadeiro propósito.

Fontes: Oficina Francisco Brennand, Enciclopédia Itaú Cultural, Museus de Pernambuco, Jeremias 18:1-6 — Almeida Revista e Atualizada.

 

Compartilhe esta notícia: