sábado, 17 de outubro de 2026

O chamado de Matheus – o Apóstolo que era Publicano (cobrador de impostos)

Por Bruno Brennand • 14 de setembro de 2026 • 9 min de leitura

“O chamado de São Mateus”, por Caravaggio – Igreja de São Luís dos Franceses, Roma – Foto: Reprodução

O Chamado de São Mateus — Caravaggio

Identificação da obra

  • Título: O Chamado de São Mateus (Vocazione di San Matteo)
  • Autor: Michelangelo Merisi da Caravaggio
  • Data: 1599–1600
  • Técnica: óleo sobre tela
  • Dimensões: aproximadamente 322 × 340 cm
  • Estilo: Barroco italiano
  • Localização: Capela Contarelli, Igreja de São Luís dos Franceses, Roma
  • Tema bíblico: Mateus 9:9

A obra integra um conjunto de três grandes telas dedicadas à vida de São Mateus: O Chamado de São Mateus, São Mateus e o Anjo e O Martírio de São Mateus. Foi uma das primeiras grandes encomendas públicas de Caravaggio e contribuiu decisivamente para sua consagração em Roma.

Descrição da cena

Caravaggio representa o instante descrito de maneira extremamente breve no Evangelho:

“Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. Ele se levantou e o seguiu.”
— Mateus 9:9

A cena ocorre em um ambiente fechado, escuro e pobremente decorado. Cinco homens encontram-se reunidos ao redor de uma mesa, contando moedas. As roupas, as armas e os chapéus pertencem ao tempo de Caravaggio, não ao século de Cristo. Essa escolha elimina a distância histórica: o chamado não acontece apenas na antiga Palestina, mas pode ocorrer em qualquer cidade, em qualquer século e diante de qualquer pessoa.

À direita entram Cristo e São Pedro. Ambos surgem discretamente, quase absorvidos pela penumbra. Jesus estende o braço em direção ao grupo e aponta para Mateus. Não há corte celestial, anjos ou manifestações espetaculares. Deus entra silenciosamente numa sala comum, entre dinheiro, negócios e homens ocupados consigo mesmos.

O homem barbado no centro aponta para o próprio peito, como se perguntasse:

“Eu?”

Essa é a identificação tradicional de Mateus. Entretanto, existe uma interpretação minoritária segundo a qual ele estaria apontando para o jovem inclinado sobre as moedas. A ambiguidade parece deliberada: o espectador é obrigado a perguntar não apenas “quem é Mateus?”, mas também “a quem Cristo está chamando?”.

Composição

A tela organiza-se em dois grupos nitidamente distintos.

À esquerda está o mundo humano: cinco homens, a mesa, as moedas, o cálculo e o interesse material. À direita está a irrupção do divino: Cristo e Pedro. O espaço vazio entre os dois grupos funciona como uma fronteira invisível entre a antiga existência de Mateus e a vida para a qual ele está sendo convocado.

A composição é predominantemente horizontal. O braço de Cristo e o feixe luminoso conduzem o olhar da direita para a esquerda, até alcançarem o rosto de Mateus. A mão levantada do futuro apóstolo devolve o movimento em sentido contrário. Assim, estabelece-se um diálogo visual entre chamado e resposta.

Os personagens mais jovens continuam presos às moedas. Um deles sequer percebe a entrada de Cristo. Caravaggio mostra que a graça pode atravessar uma sala sem ser reconhecida por todos. A presença divina não destrói a liberdade humana nem obriga mecanicamente à conversão.

A luz como presença da graça

A luz é o verdadeiro eixo teológico da pintura.

Um feixe oblíquo entra pela parte superior direita, atravessa a escuridão e alcança os homens reunidos à mesa. Embora pareça vir da janela, sua direção acompanha o gesto de Cristo. Por isso, ela não funciona apenas como iluminação natural: simboliza a graça que invade a existência comum e revela aquilo que estava oculto.

Cristo encontra-se parcialmente mergulhado na sombra, enquanto a luz incide sobre aqueles que estão sendo chamados. O paradoxo é deliberado: aquele que é a fonte espiritual da luz não precisa estar fisicamente iluminado. Sua presença faz com que os demais sejam vistos.

O raio não elimina completamente a escuridão. Ele a corta. Essa característica traduz visualmente a experiência da conversão: a graça não nega o passado, mas penetra nele, separando o que a pessoa era daquilo que poderá tornar-se.

Claro-escuro e tenebrismo

Caravaggio emprega um claro-escuro radical, posteriormente associado ao chamado tenebrismo. Grande parte do ambiente permanece mergulhada numa escuridão densa, contra a qual rostos, mãos, tecidos e objetos emergem com extraordinária força.

A luz não é distribuída uniformemente. Ela seleciona. Ilumina aquilo que é necessário à narrativa e abandona o restante à penumbra. Desse modo, o pintor transforma a iluminação em instrumento dramático e teológico.

A escuridão representa mais do que ausência de luz física. Ela sugere o fechamento espiritual dos personagens, a prisão do dinheiro e a incapacidade humana de perceber Cristo sem que algo exterior interrompa a rotina.

O gesto de Cristo

A mão de Cristo recorda deliberadamente a mão de Adão na Criação de Adão, de Michelangelo. Contudo, Caravaggio inverte o sentido teológico do gesto. No afresco da Capela Sistina, Deus comunica a vida ao primeiro homem; nesta tela, Cristo — o novo Adão — oferece a Mateus uma nova existência.

A mão de Jesus não é autoritária. Seu gesto parece sereno, quase silencioso. Ele aponta, mas não agarra. Chama, mas não força. Mateus deve abandonar voluntariamente a mesa, as moedas e a identidade construída em torno da cobrança de impostos.

Pedro aparece diante de Cristo e repete parcialmente seu gesto. Ele pode ser interpretado como imagem da Igreja, por meio da qual o chamado de Cristo continua a alcançar os homens. Ao mesmo tempo, seu corpo encobre parcialmente Jesus, sugerindo uma tensão permanente: a Igreja transmite Cristo, mas seus membros humanos também podem ocultá-lo.

Naturalismo

Caravaggio rompe com a tradição de representar personagens sagrados como figuras idealizadas. Os homens possuem rostos comuns, roupas contemporâneas e gestos reconhecíveis. Mateus não aparece como santo glorificado, mas como cobrador de impostos ainda cercado pelo dinheiro.

O pintor não representa o resultado da conversão. Representa sua primeira ruptura: o segundo exato em que uma vida é surpreendida por uma possibilidade que não havia previsto.

Essa opção aproxima o episódio do observador. O sagrado não está separado do cotidiano. Cristo entra no local de trabalho, interrompe a contabilidade e chama um homem moralmente comprometido. A santidade começa em território imperfeito.

O significado das moedas

As moedas ocupam uma área pequena, mas decisiva. Elas representam o mundo ao qual Mateus pertence: riqueza, cálculo, poder fiscal e colaboração com a dominação romana.

Dois personagens permanecem inclinados sobre o dinheiro, indiferentes ao acontecimento. Não são necessariamente homens que rejeitaram conscientemente Cristo; talvez sequer tenham percebido sua presença. Aqui reside uma das críticas mais duras da pintura: certas pessoas não recusam o chamado por argumentos, mas porque estão ocupadas demais contando aquilo que possuem.

Mateus, ao contrário, ergue os olhos. Sua conversão começa antes de qualquer movimento físico. Começa quando ele deixa de olhar para as moedas e encara aquele que o chama.

O tempo suspenso

Caravaggio não mostra Mateus levantando-se da mesa. O pintor escolhe o instante anterior à decisão. Tudo permanece suspenso entre a palavra de Cristo e a resposta do publicano.

Essa suspensão dá à obra sua força dramática. O espectador conhece o desfecho bíblico, mas a pintura mantém aberta a possibilidade da recusa. Mateus ainda possui uma mão próxima ao dinheiro e a outra voltada para o próprio peito. Ele se encontra dividido entre posse e vocação, segurança e ruptura, identidade antiga e missão futura.

A conversão não é apresentada como emoção abstrata. É uma decisão concreta que exige deixar alguma coisa para trás.

Interpretação teológica

A obra pode ser compreendida como uma representação visual da graça eficaz, sem transformar o homem em objeto passivo. Cristo toma a iniciativa: entra, vê Mateus e o chama. Mateus não procurava Jesus nem havia demonstrado qualquer mérito anterior. A vocação nasce da eleição divina, não da superioridade moral do escolhido.

Entretanto, o chamado exige resposta. A luz alcança vários homens, mas somente Mateus reconhece que aquelas palavras lhe são dirigidas. A graça chega de fora, atravessa a escuridão e convoca a vontade.

Caravaggio também evita apresentar Mateus como alguém previamente preparado para a santidade. Ele é chamado precisamente no lugar de sua vida comprometida, sentado diante do dinheiro que simboliza sua antiga condição. Cristo não espera que Mateus se torne digno para então chamá-lo. O chamado é o princípio de sua transformação.

A tênue auréola sobre a cabeça de Jesus é quase imperceptível. Sua divindade não se impõe por efeitos grandiosos, mas deve ser reconhecida através de sua palavra, de seu gesto e da luz que produz.

Síntese interpretativa

O Chamado de São Mateus é uma pintura sobre o instante em que a eternidade atravessa a rotina. Cristo entra sem espetáculo, aponta para um homem improvável e transforma uma mesa de impostos no lugar de nascimento de uma vocação.

Caravaggio mostra que a luz divina não se dirige necessariamente aos ambientes puros, aos homens preparados ou aos que já abandonaram seus pecados. Ela entra justamente onde estão as moedas, os interesses e a escuridão.

A pergunta silenciosa de Mateus — “Eu?” — é o centro humano da obra. A resposta de Cristo permanece em seu gesto: sim, você. Não porque seja digno, mas porque foi chamado.

Por isso, a tela não descreve apenas a conversão de um apóstolo. Ela coloca cada observador dentro daquela sala. Alguns continuarão olhando para as moedas. Outros perceberão a luz. A diferença não está em quem foi alcançado pelo raio, mas em quem levantará os olhos e responderá ao chamado.

Fontes: Web Gallery of Art, Smarthistory — Capela Contarelli, Khan Academy — The Calling of Saint Matthew, texto bíblico — Mateus 9.

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