A FÉ COMO LINGUAGEM EVIDENTE: CONTRAPONTO ENTRE LUDWIG WITTGENSTEIN E FRANCIS SCHAEFFER E DOOYOWEERD
Resumo: Este artigo analisa a visão de Ludwig Wittgenstein sobre o Cristianismo, em especial sua concepção da linguagem religiosa como expressão existencial, contrastando-a com a abordagem apologética de Francis Schaeffer. Argumenta-se que, enquanto Wittgenstein rechaça a validade da apologética racionalista, Schaeffer defende que a fé cristã pode e deve dialogar com a cultura moderna por meio de uma racionalidade redimida. O estudo conclui que a apologética cristã, sem negligenciar o testemunho existencial, deve integrar razão e revelação para responder adequadamente aos desafios contemporâneos. Apresentamos também a visão de Dooyeweerd como suporte à visão de Schaeffer.
Palavras-chave: Wittgenstein. Schaeffer. Dooyeweerd. Apologética. Linguagem religiosa. Fé. Filosofia da religião.
- Introdução
1.1 A escolha do tema. Inicialmente busquei no livro “Os Conflitos de Fé dos Filósofos – Anjos Caídos” de Jonatas F. Cunha da Arte Editorial. O referido nos leva ao confronto como um dialogo apologético com diversos pensadores e filósofos ocidentais, tais como Nietzsche, Marx, Kant, Espinoza, Freud, Darwin, Descartes, dentre outros, todavia, vasculhando minha modesta biblioteca me deparei com Wittgenstein que há muito não lia, e descobri que ao contrário dos acima citados, o mesmo não era ateu, pelo contrário, era um cristão fervoroso.
Me senti então desafiado a elaborar essa resenha crítica a partir do pensamento desse importante filosofo.
Começo apresentando-o:
Ludwig Wittgenstein (1889–1951) é uma das figuras mais influentes da filosofia do século XX. Sua obra está dividida em duas fases principais, a do ‘Tractatus Logico-Philosophicus’ e a das ‘Investigações Filosóficas’, cada uma com implicações distintas para a filosofia da linguagem, epistemologia, ética, religião e metafísica. A seguir, são apresentados seus principais ensinos e contribuições.
1.1 Linguagem como figura do mundo
Na primeira fase (Tractatus), Wittgenstein propõe que a linguagem representa o mundo por meio de estruturas lógicas. Apenas proposições verificáveis logicamente têm sentido. A linguagem delimita o que pode ser pensado e falado. O que não pode ser dito com clareza deve ser silenciado.
1.2. Sentido como uso
Na fase tardia (Investigações Filosóficas), Wittgenstein abandona a ideia de estrutura lógica fixa. Passa a defender que o significado das palavras depende de seu uso nas práticas sociais — os ‘jogos de linguagem’. A linguagem é multifacetada e seu sentido nasce da vida prática.
1.3. Crítica à metafísica
Wittgenstein argumenta que muitos problemas filosóficos surgem de confusões linguísticas. Em vez de construir sistemas, a filosofia deve esclarecer o uso correto das palavras. A metafísica tradicional é, assim, em grande parte, desfeita.
1.4. Rejeição da linguagem privada
Ele nega a possibilidade de uma linguagem que só o indivíduo poderia entender, pois o significado exige critérios públicos. A mente e os estados interiores são inteligíveis somente porque partilhamos práticas comuns.
1.5. Ética, estética e religião
Mesmo considerando que não podem ser expressas por proposições, Wittgenstein afirma que a ética, a religião e o belo são centrais à vida. Esses temas pertencem ao domínio do indizível — mas do profundamente vivido.
1.6 Introdução propriamente dita a resenha crítica:
É aqui que começamos a nossa resenha crítica. Justamente quando explicamos a visão de religião de Wittgestein. A relação entre linguagem, religião e racionalidade é um dos temas centrais da filosofia do século XX. Ludwig Wittgenstein, especialmente em sua fase tardia, propôs que as crenças religiosas devem ser compreendidas dentro de formas de vida, sendo inaplicável o critério de verdade racional à linguagem da fé. Francis Schaeffer, por outro lado, desenvolveu uma apologética que busca afirmar a veracidade objetiva do Cristianismo diante das rupturas da modernidade. Este artigo analisa essas duas visões em tensão, integrando ainda a contribuição filosófica de Herman Dooyeweerd.
- Wittgenstein e o Cristianismo como forma de vida
Ludwig Wittgenstein (1889–1951) não se considerava um teólogo, mas refletiu profundamente sobre a religião. Em sua obra “Investigações Filosóficas” e nos “Cadernos de Cultura e Religião”, ele afirma que a fé não é uma doutrina, mas uma atitude diante da vida. Para ele, as proposições religiosas pertencem a um “jogo de linguagem” próprio, com regras internas que não podem ser julgadas por padrões lógicos ou empíricos. A fé é algo que se mostra na vida, não algo que se prova.
Wittgenstein respeitava profundamente a religião, mas rejeitava a apologética como redução da fé a uma tese racional. Sua influência se alinha a uma concepção não-cognitivista da linguagem religiosa, na qual crer é mais uma prática existencial do que uma aceitação intelectual de proposições.
- Francis Schaeffer e a racionalidade da fé
Francis Schaeffer (1912–1984), apologista reformado, desenvolveu sua teologia em diálogo com as questões existenciais da cultura pós-moderna. Para ele, a fé cristã é verdadeira tanto no âmbito existencial quanto racional. Em sua obra “A Morte da Razão”, ele denuncia a ruptura entre fé e razão operada pela modernidade, que relegou a religião ao campo da irracionalidade subjetiva.
Schaeffer propõe uma apologética que parte da pressuposição da verdade das Escrituras, mas que dialoga com a cultura por meio de uma razão redimida. Para ele, é possível demonstrar que o Cristianismo oferece uma visão de mundo coerente, capaz de dar sentido à realidade e responder às angústias humanas.
- Diálogo e tensão entre Wittgenstein e Schaeffer
O contraste entre Wittgenstein e Schaeffer se dá sobretudo na compreensão da linguagem religiosa e da apologética. Wittgenstein rejeita que a religião possa ou deva ser provada; Schaeffer defende que o Cristianismo é uma verdade histórica e objetiva que pode ser racionalmente sustentada.
Para Wittgenstein, tentar provar a fé é uma distorção da linguagem religiosa. Para Schaeffer, não fornecer razões para a fé é entregar o terreno da cultura ao niilismo. Essa tensão reflete diferentes compreensões sobre a relação entre fé, linguagem e verdade.
4.1 Dooyeweerd: a estrutura religiosa do pensamento e a crítica ao relativismo
Herman Dooyeweerd (1894–1977), filósofo reformado holandês, contribui decisivamente para uma visão cristã integral da realidade. Em sua filosofia da ideia cosmonômica, ele demonstra que toda racionalidade humana é moldada por pressupostos religiosos. Isso inclui também a linguagem e a própria filosofia. Em contraste com Wittgenstein, que fragmenta os significados em jogos de linguagem, Dooyeweerd propõe que todas as esferas da vida estão ordenadas por estruturas criadas por Deus, sendo a Palavra o fundamento supremo da realidade.
Para Dooyeweerd, não há neutralidade no pensamento: todas as formas de conhecimento partem de um “coração religioso”. Assim, enquanto Wittgenstein abre espaço para um relativismo epistemológico, Dooyeweerd sustenta que a verdade é acessível e objetiva, desde que reconhecida a sua base transcendente. Sua crítica à razão autônoma é complementar à de Schaeffer, oferecendo uma base filosófica robusta para a apologética cristã.
- Apologética como integração entre razão e revelação
A contribuição de Wittgenstein à teologia está em recordar que a fé cristã não é um sistema abstrato, mas uma experiência que transforma a vida. Contudo, sua recusa à racionalidade como parte da fé pode levar a um relativismo teológico. A visão de Schaeffer, enriquecida pela base filosófica de Dooyeweerd, corrige esse extremo ao demonstrar que a verdade da fé cristã pode ser defendida com razões, sem abdicar de sua dimensão espiritual.
Portanto, a apologética eficaz não é nem fria lógica, nem subjetivismo existencial: é um testemunho da verdade que se faz carne, um logos encarnado, que fala tanto à mente quanto ao coração.
- Conclusão
A contribuição de Wittgenstein à compreensão da religião é valiosa ao destacar sua dimensão vivencial. No entanto, a apologética de Francis Schaeffer, em diálogo com a filosofia de Herman Dooyeweerd, demonstra que a fé cristã também possui coerência racional e é responsável por oferecer respostas plausíveis à realidade. O verdadeiro diálogo entre fé e razão se estabelece quando ambas se reconhecem como dons de Deus, instrumentos da graça e da verdade.
BIBLOGRAFIA
CUNHA, Jonatas F. Os Conflitos de Fé dos Filósofos: Anjos Caídos. São Paulo: Arte Editorial, [s.d.].
DOOYEWEERD, Herman. A New Critique of Theoretical Thought. 4 v. Philadelphia: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1953–1958.
SCHAEFFER, Francis A. A Morte da Razão. Trad. Valter Martins. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2005.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Trad. José Carlos Bruni. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. Trad. Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Pensamentos Diversos: Cadernos de Cultura e Religião. Trad. Marcelo Consenza. São Paulo: Editora UNESP, 2000.